A Planta Mais Triste Do Mundo


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Um dia conheci a planta mais triste do mundo.

Vive numa cave da Reboleira, com uma fila de janelinhas rasgadas, onde o sol entra a custo filtrado por vidros daqueles com arame por dentro.

E essa cave é uma Repartição das Finanças.

Está para ali, sabe Deus há quanto tempo, a fotossintetizar no meio do pó dos processos, das pilhas de papéis amarelados, dos gorduchos peixinhos-de-prata.

Passa o dia a ouvir palavras – “penhora”, “contribuição”, “imi”, “notificação”, “já tirou a senha?”, “caducado”, “imposto”, “isso agora…” – mas ninguém conversa com ela.

E não sabe o que é a música.

Um dia desenhei a planta mais triste do mundo por piedade.

Amizade Oculta


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No ano 2000 (ou terá sido 2001?) tive o privilégio de fazer parte de um grupo excepcional de pessoas que se reuniam semanalmente para, devidamente orientadas, escrever. Melhor: para escrever e ler. Porque depois de escritos os textos eram lidos em voz alta.

Descobrimos assim – cada um de nós – que a nossa voz era única também pelas palavras que escolhíamos e pelas que deixávamos de fora e não apenas pelas diferenças no timbre com que depois as entregávamos aos outros.

Desse grupo fazia parte o Vasco que foi dos poucos que continuou abraçado às letras porque o Vasco… não tem como lhes fugir.

O Vasco nasceu poeta. Com aquela capacidade rara de escolher palavras a dedo e encaixa-las onde menos se espera e onde novos sentidos fazem. O Vasco utiliza palavras graves e sérias e no entanto os seus textos permanecem simples. São poemas encorpados, densos e bonitos.

À parte isso, o Vasco tem muitas coisas em comum comigo e tornou-se inevitável e instantaneamente meu amigo. No entanto, vá-se lá saber porquê, estivemos dez anos (!) sem saber um do outro.

Há um mês atrás procurei-o no Facebook – um lugar cheio de amigos perdidos – e encontrei-o. Escrevi-lhe uma mensagem à qual me respondeu de imediato, com o mesmo entusiasmo sereno de sempre.

Resumimos rapidamente a década de cada um. Falámos dos projectos, das viagens, dos filhos respectivos. Às tantas falei-lhe deste blogue e ele falou-me duma proposta. Combinámos um almoço e ele explicou: “Reencontrámo-nos precisamente no momento em que procuro uma capa para o meu livro. Teria muito gosto que fosses tu a fazê-la”.

O livro é tremendo e o tema diz-me muito. Foi fácil.

É com muita honra que verei ser lançado no próximo sábado, pelas 22h no Bar d´A Barraca, o livro “Fera Oculta”, do meu amigo Vasco Gato. Com uma ilustração minha na capa.

Apareçam!

A menina do mar


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“(…) A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas. (…)”

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pimp my Meia-de-Leite


Lembro-me que pedia somente “um galão e uma torrada” quando tomava o pequeno-almoço fora – um hábito que tenho vindo a perder por força dos tempos e dos dinheiros.

Hoje é uma carga de trabalhos. Pedem-se Cappuccinos e Lattes para acompanhar Muffins e Doughnuts. E parece mal não se personalizar o pedido: “O meu é tipo com leite extra magro de vacas nepalesas, chantilly de soja e topping de gomas azuis light”.

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Antes da tempestade, a bonança.


Esta tarde, no Restelo, minutos antes do céu inteiro nos cair sobre as cabeças ensopadas.

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Auloween


O Gonçalo V. (9 anos) leva tudo à frente.

O seu entusiasmo constante, transborda e agita-o de tal forma que desconcentra os colegas, o professor, e a si mesmo.

Mas no olho desse furacão, está um talento incrível com o qual tenho o privilégio de trabalhar há três anos. Um dom capaz de desenhos como este em 10 minutos e de tantas coisas mais que ele ainda nem suspeita.

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D´aprés M 2

 

Juntos animemos a sereia triste! (Desenhos sobre um mar de cores que a minha filha deixou num dos meus cadernos).