Perder o pio.


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No Jornal i de hoje saiu um artigo com o seguinte título:

“A geração dos phones já não consegue ouvir o canto dos pássaros” (link)

Não sei se existe uma palavra que signifique o inverso de poesia mas esta frase, para mim, é isso mesmo.

De que vale amar a música se, para a escutarmos em qualquer lado, utilizamos um dispositivo que nos pode retirar a capacidade de escutar o canto dos pássaros?

De que vale a música – e a vida – sem o canto dos pássaros?

Que las hay las hay


lgmtcnht_DeOndeVemAsBruxas_3A primeira edição do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce aconteceu no ano passado, numa altura onde eu tive tanta coisa para fazer que estive indeciso sobre se haveria de participar ou não até à última, literalmente. Decidi que sim a poucas horas de terminar o prazo de entrega.

Os desenhos foram feitos num hotel em Sevilha, pela madrugada dentro, numa mesa de vidro (o que eu odeio trabalhar em mesas de vidro!) e enviei a minha participação sob o pseudónimo de Luis Morales, o nome da rua da estação de correios de onde enviei a carta. Tudo para correr mal…

Obviamente, não ganhei concurso nenhum. Ainda assim, gosto destes dois desenhos – feitos sobre o texto vencedor de Joana Lopes – que fizeram parte da minha proposta.

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A minha avó gorda.


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A minha avó paterna era gorda.

Nela, o facto de ser gorda não era um adjectivo mas antes um traço de personalidade. Era gorda como quem, por exemplo, tem o riso fácil ou mau feito (e ela tinha ambos, por acaso). Nunca lhe senti uma verdadeira vontade de alterar essa condição pois ela fazia parte da sua maneira de ser.

Lembro-me de um dia, era eu criança, estar de visita a sua casa no Bairro das Colónias e a minha avó ter deixado cair qualquer coisa ao chão. Pediu-me para ser eu a apanhá-la e eu, que ainda estava longe, estranhei o pedido. Pressentindo a hesitação, justificou-se: “é que a Avó não se pode dobrar… uma vez engoliu um garfo”.

Esta conversa aconteceu na cozinha. A maior parte das conversas com a minha Avó – pelo menos as melhores – acontecia à mesa ou na cozinha. E naquele contexto, um enorme apetite pela conversa salteada com culinária, o facto de ter engolido um garfo pareceu-me perfeitamente verosímil. E havia de ter sido dos grandes!

Durante muitos anos acreditei naquela história e foi impossível não me lembrar dela enquanto desenhava esta senhora na praia que, não sendo a minha Avó Aurora, quer-me parecer que também engoliu um talher qualquer.

Figuinho da capa rota


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“Figuinho da capa rota
É tão pobre e tão rotinho,
Figuinho da capa rota
Foi rota devagarinho

Figuinho da capa rota,
Ai quem te quer almoçar
Figuinho da capa rota
Eu nem o posso provar…

Figuinho da capa rota,
Verde nos primeiros tempos
Veio o Sol e veio a Lua,
Vieram chuvas e ventos.

Figuinho da capa rota,
Que nasceu da mãe-figueira,
Teve sóis e teve luar,
Pássaros à sua beira.

Figuinho da capa rota
Bicado pelos passarinhos:
Figuinho da capa rota
Ninguém lhe põe remendinhos.

Figuinho da capa rota
Tornou-se da cor do mel.
O tempo veio rompê-lo,
Rasgou-se como papel…

Mas agora a mãe-figueira
Está com folhas e sem fruto,
Que o verde é sua maneira
Muito simples de pôr luto.”

Matilde Rosa Araújo, Livro da Tila

Balonismo


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Quando terminou a sua fatia do bolo de framboesa, a princesa adolescente deu o piquenique por terminado.

Mergulhou as mãos na água verde-escura da fonte mais próxima. Quase até ao cotovelo, só até molhar as pregas das mangas enroladas. Depois, com um sorriso e um ligeiro movimento do pescoço, dispensou a aia que se esgueirou de sombra em sombra até o fresco da cozinha.

Então, num só gesto, arrastou pratos copos o bolo quase intacto talheres frascos de compota para a relva e pôs de parte a toalha branca. Colocou o banquinho de verga sobre a boca do cesto e atou-os muito bem. Depois, com uma das pontas da toalha deu um nó em volta de uma das pernas do banco – cá em cima, mesmo abaixo do assento – e repetiu o gesto para cada uma das outras pontas.

Encostou as costas ao Diospireiro, deu dois passos em frente, cinco para o lado, e desenterrou a caixa de metal onde guardava todas as cartas por ele escritas. Sobre o banquinho formou com elas um pequeno monte. Depois, primeiro uma perna depois a outra, entrou para o cesto e riscou um fósforo.

Enquanto subia acima dos telhados do palácio e as cozinheiras – a secar as mãos gordas aos aventais – vinham ver que sombra era aquela que se movia, a princesa adolescente começou a vislumbrar o muro alto que cintava a sua vida.

Pela primeira vez, acreditou que aquela talvez não fosse uma má ideia. Desta vez iria resultar.

Defender


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Como uma máscara. Sempre que me sentei ao seu volante fui um explorador intrépido.

Como um animal grande e lento. No seu dorso passei seguro por caminhos que não faria a pé.

Como um exercício físico mal feito. As minhas costas doridas no dia seguinte.

Como um manifesto. A saudação entre condutores quando se cruzam modelos iguais.

Como um trator. Feio, duro, infeliz no alcatrão.

Um automóvel como uma pessoa. Sinto saudades do meu.

INÚTEIS


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Sei que estava à espera que me chamassem para fazer uma Escritura e que, tal como hoje, era quase Natal. Não faço ideia porque escrevi aquilo sobre aqueles casacos.

Estaria a pensar na quantidade de coisas que nesta altura do ano tornamos inúteis ao comprarmos outras para ocupar o seu lugar que simplesmente… não estava vago?

Não me parece. Desenhei aqueles casacos porque não tinha mais nada para desenhar e agora acho que eles foram úteis lá mais para a tardinha. Só estavam a descansar.