Figuinho da capa rota


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“Figuinho da capa rota
É tão pobre e tão rotinho,
Figuinho da capa rota
Foi rota devagarinho

Figuinho da capa rota,
Ai quem te quer almoçar
Figuinho da capa rota
Eu nem o posso provar…

Figuinho da capa rota,
Verde nos primeiros tempos
Veio o Sol e veio a Lua,
Vieram chuvas e ventos.

Figuinho da capa rota,
Que nasceu da mãe-figueira,
Teve sóis e teve luar,
Pássaros à sua beira.

Figuinho da capa rota
Bicado pelos passarinhos:
Figuinho da capa rota
Ninguém lhe põe remendinhos.

Figuinho da capa rota
Tornou-se da cor do mel.
O tempo veio rompê-lo,
Rasgou-se como papel…

Mas agora a mãe-figueira
Está com folhas e sem fruto,
Que o verde é sua maneira
Muito simples de pôr luto.”

Matilde Rosa Araújo, Livro da Tila

Balonismo


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Quando terminou a sua fatia do bolo de framboesa, a princesa adolescente deu o piquenique por terminado.

Mergulhou as mãos na água verde-escura da fonte mais próxima. Quase até ao cotovelo, só até molhar as pregas das mangas enroladas. Depois, com um sorriso e um ligeiro movimento do pescoço, dispensou a aia que se esgueirou de sombra em sombra até o fresco da cozinha.

Então, num só gesto, arrastou pratos copos o bolo quase intacto talheres frascos de compota para a relva e pôs de parte a toalha branca. Colocou o banquinho de verga sobre a boca do cesto e atou-os muito bem. Depois, com uma das pontas da toalha deu um nó em volta de uma das pernas do banco – cá em cima, mesmo abaixo do assento – e repetiu o gesto para cada uma das outras pontas.

Encostou as costas ao Diospireiro, deu dois passos em frente, cinco para o lado, e desenterrou a caixa de metal onde guardava todas as cartas por ele escritas. Sobre o banquinho formou com elas um pequeno monte. Depois, primeiro uma perna depois a outra, entrou para o cesto e riscou um fósforo.

Enquanto subia acima dos telhados do palácio e as cozinheiras – a secar as mãos gordas aos aventais – vinham ver que sombra era aquela que se movia, a princesa adolescente começou a vislumbrar o muro alto que cintava a sua vida.

Pela primeira vez, acreditou que aquela talvez não fosse uma má ideia. Desta vez iria resultar.

Defender


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Como uma máscara. Sempre que me sentei ao seu volante fui um explorador intrépido.

Como um animal grande e lento. No seu dorso passei seguro por caminhos que não faria a pé.

Como um exercício físico mal feito. As minhas costas doridas no dia seguinte.

Como um manifesto. A saudação entre condutores quando se cruzam modelos iguais.

Como um trator. Feio, duro, infeliz no alcatrão.

Um automóvel como uma pessoa. Sinto saudades do meu.

INÚTEIS


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Sei que estava à espera que me chamassem para fazer uma Escritura e que, tal como hoje, era quase Natal. Não faço ideia porque escrevi aquilo sobre aqueles casacos.

Estaria a pensar na quantidade de coisas que nesta altura do ano tornamos inúteis ao comprarmos outras para ocupar o seu lugar que simplesmente… não estava vago?

Não me parece. Desenhei aqueles casacos porque não tinha mais nada para desenhar e agora acho que eles foram úteis lá mais para a tardinha. Só estavam a descansar.

O Ciclista


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“O homem que pedala, que ped´alma

com o passado a tiracolo,

ao ar vivaz abre as narinas:

tem o por vir na pedaleira.”

Alexandre O´Neill

 

A Planta Mais Triste Do Mundo


Um dia conheci a planta mais triste do mundo.

Vive numa cave da Reboleira, com uma fila de janelinhas rasgadas, onde o sol entra a custo filtrado por vidros daqueles com arame por dentro.

E essa cave é uma Repartição das Finanças.

Está para ali, sabe Deus há quanto tempo, a fotossintetizar no meio do pó dos processos, das pilhas de papéis amarelados, dos gorduchos peixinhos-de-prata.

Passa o dia a ouvir palavras – “penhora”, “contribuição”, “imi”, “notificação”, “já tirou a senha?”, “caducado”, “imposto”, “isso agora…” – mas ninguém conversa com ela.

E não sabe o que é a música.

Um dia desenhei a planta mais triste do mundo por piedade.

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Amizade Oculta


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No ano 2000 (ou terá sido 2001?) tive o privilégio de fazer parte de um grupo excepcional de pessoas que se reuniam semanalmente para, devidamente orientadas, escrever. Melhor: para escrever e ler. Porque depois de escritos os textos eram lidos em voz alta.

Descobrimos assim – cada um de nós – que a nossa voz era única também pelas palavras que escolhíamos e pelas que deixávamos de fora e não apenas pelas diferenças no timbre com que depois as entregávamos aos outros.

Desse grupo fazia parte o Vasco que foi dos poucos que continuou abraçado às letras porque o Vasco… não tem como lhes fugir.

O Vasco nasceu poeta. Com aquela capacidade rara de escolher palavras a dedo e encaixa-las onde menos se espera e onde novos sentidos fazem. O Vasco utiliza palavras graves e sérias e no entanto os seus textos permanecem simples. São poemas encorpados, densos e bonitos.

À parte isso, o Vasco tem muitas coisas em comum comigo e tornou-se inevitável e instantaneamente meu amigo. No entanto, vá-se lá saber porquê, estivemos dez anos (!) sem saber um do outro.

Há um mês atrás procurei-o no Facebook – um lugar cheio de amigos perdidos – e encontrei-o. Escrevi-lhe uma mensagem à qual me respondeu de imediato, com o mesmo entusiasmo sereno de sempre.

Resumimos rapidamente a década de cada um. Falámos dos projectos, das viagens, dos filhos respectivos. Às tantas falei-lhe deste blogue e ele falou-me duma proposta. Combinámos um almoço e ele explicou: “Reencontrámo-nos precisamente no momento em que procuro uma capa para o meu livro. Teria muito gosto que fosses tu a fazê-la”.

O livro é tremendo e o tema diz-me muito. Foi fácil.

É com muita honra que verei ser lançado no próximo sábado, pelas 22h no Bar d´A Barraca, o livro “Fera Oculta”, do meu amigo Vasco Gato. Com uma ilustração minha na capa.

Apareçam!