A minha avó gorda.

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A minha avó paterna era gorda.

Nela, o facto de ser gorda não era um adjectivo mas antes um traço de personalidade. Era gorda como quem, por exemplo, tem o riso fácil ou mau feito (e ela tinha ambos, por acaso). Nunca lhe senti uma verdadeira vontade de alterar essa condição pois ela fazia parte da sua maneira de ser.

Lembro-me de um dia, era eu criança, estar de visita a sua casa no Bairro das Colónias e a minha avó ter deixado cair qualquer coisa ao chão. Pediu-me para ser eu a apanhá-la e eu, que ainda estava longe, estranhei o pedido. Pressentindo a hesitação, justificou-se: “é que a Avó não se pode dobrar… uma vez engoliu um garfo”.

Esta conversa aconteceu na cozinha. A maior parte das conversas com a minha Avó – pelo menos as melhores – acontecia à mesa ou na cozinha. E naquele contexto, um enorme apetite pela conversa salteada com culinária, o facto de ter engolido um garfo pareceu-me perfeitamente verosímil. E havia de ter sido dos grandes!

Durante muitos anos acreditei naquela história e foi impossível não me lembrar dela enquanto desenhava esta senhora na praia que, não sendo a minha Avó Aurora, quer-me parecer que também engoliu um talher qualquer.

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