A minha avó gorda.


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A minha avó paterna era gorda.

Nela, o facto de ser gorda não era um adjectivo mas antes um traço de personalidade. Era gorda como quem, por exemplo, tem o riso fácil ou mau feito (e ela tinha ambos, por acaso). Nunca lhe senti uma verdadeira vontade de alterar essa condição pois ela fazia parte da sua maneira de ser.

Lembro-me de um dia, era eu criança, estar de visita a sua casa no Bairro das Colónias e a minha avó ter deixado cair qualquer coisa ao chão. Pediu-me para ser eu a apanhá-la e eu, que ainda estava longe, estranhei o pedido. Pressentindo a hesitação, justificou-se: “é que a Avó não se pode dobrar… uma vez engoliu um garfo”.

Esta conversa aconteceu na cozinha. A maior parte das conversas com a minha Avó – pelo menos as melhores – acontecia à mesa ou na cozinha. E naquele contexto, um enorme apetite pela conversa salteada com culinária, o facto de ter engolido um garfo pareceu-me perfeitamente verosímil. E havia de ter sido dos grandes!

Durante muitos anos acreditei naquela história e foi impossível não me lembrar dela enquanto desenhava esta senhora na praia que, não sendo a minha Avó Aurora, quer-me parecer que também engoliu um talher qualquer.

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27Ago2006 SãO PEDRO DE MOEL. Um pedaço de terra. Chega um e sonha. Vêm outros e desenham. Vêm outros e calculam. Vêm outros e aprovam. Vêm outros e escavam. Vêm outros e enchem. Vêm outros e empilham. Vêm outros e cobrem. Vêm outros e supervisionam. Vêm outros e corrigem. Vêm outros e iluminam. Vêm outros e tapam. Vêm outros e pintam. Vêm outros e certificam. Vêm outros e aprovam. Vêm outros e mostram. Vêm outros e vêem. Vêm outros e voltam a sonhar. Vêm outros e emprestam. Vêm outros e vendem. Vêm outros e compram e vivem e complicam e amam. E depois vêm outros e nascem e sonham ainda outros sonhos mais ::: Para levantar uma casa do chão são precisos muitos homens. Noites sem dormir. Pormenores que lembram e pormenores que escapam. Orçamentos que derrapam, materiais que cedem. Horas e horas de trabalho repartido. Músculo, cérebro, suor, burocracia e arte. É obra.

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Vilamoura. Tinha a caixa de aguarelas guardada há anos no fundo da gaveta até que no Verão de 2005, inspirado pelo blogue e livros do Danny Gregory, decidi que tinha mesmo que lhes dar uso: os desenhos não se fazem sozinhos! Esta foi uma das minhas primeiras aventuras exploratórias ao fabuloso mundo das aguarelas perdidas. Hoje, um dos piores dias do ano, deixo-vos um cheirinho a Verão. (translate.google.com.br) Vilamoura. I  kept the box of watercolors for years in the bottom drawer until the summer of 2005 when, inspired by Danny Gregory‘s blog and  books, I decided I had to give them some use: drawings do not draw themselves! This was one of my first exploratory adventures to the fabulous world of the lost watercolors. Today, one of the worst days of the year, I leave you all a summer breeze.