189.


 

 

 

 

 

 

 

TARDE. O dia cinzento de manhã à noite. A chuva que não pára. O frio lá fora. Lembro as tardes da minha infância onde tudo isto significava apenas uma coisa: LEGO. Horas e horas com peças às cores nas minhas mãos. Depois carros, pontes, casas, naves, cidades inteiras onde nunca chovia.

188.


OUTONO. O céu de Lisboa está cinzento mas a temperatura amena. São as condições ideais para pedir um Croissant na Benard. Com doce de ovos, chocolate, misto, só com manteiga ou simples, tanto faz. E para acompanhar, uma Meia de Leite – que ali é servida com o leite e o café em recipientes separados para que o cliente tinja o leite até ao tom da sua preferência. Um pequeno luxo para fingir que está tudo bem.

185.


AREEIRO. Esperava dentro do carro enquanto desenhava o edifício mais emblemático da Praça Francisco Sá Carneiro e, enquanto desenhava, pensei em todas as vezes que a minha história se cruzou com aquela Praça. ::: Houve um tempo em que ela não era Praça mas antes Rotunda. Rotunda do Areeiro. E  “Areeiro”, para um menino que aprendia a ler, era uma palavra mágica e estranha, com dois “E” seguidos. Era também o sítio das Chaves, e o nome de uma das estações onde eu saía das poucas vezes que andava de Metro – que na altura todos chamavam de Metropolitano. ::: Essas viagens debaixo de terra eram sempre um acontecimento ao qual ainda hoje associo chuva, torradas e galões. E também, na época de Natal, uma fatia de Bolo Rei que ali se vende durante todo o ano. :::  Mais tarde, numa época em que na política aquilo que mais importava ainda eram os valores e os ideais, houve um político baixinho que fez um país (quase!) inteiro acreditar nos seus e que chegou muito jovem a Primeiro Ministro. Eu era mesmo muito novo mas lembro-me perfeitamente de, na noite em que a sua morte foi notícia e as pessoas saíram à rua em choque, estar em casa da minha Avó, muito perto desta Praça à qual deram o nome desse Francisco cujos sonhos morreram dentro daquele avião. ::: Muitos anos depois foi também naquela Praça que foi desenhado e costurado o vestido de noiva com que a minha mulher me haveria de comover ao entrar, resplandecente, na Sé de Lisboa – que talvez se veja dali, lá de cima, naquelas janelas mais altas deste edifício.