INÚTEIS


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Sei que estava à espera que me chamassem para fazer uma Escritura e que, tal como hoje, era quase Natal. Não faço ideia porque escrevi aquilo sobre aqueles casacos.

Estaria a pensar na quantidade de coisas que nesta altura do ano tornamos inúteis ao comprarmos outras para ocupar o seu lugar que simplesmente… não estava vago?

Não me parece. Desenhei aqueles casacos porque não tinha mais nada para desenhar e agora acho que eles foram úteis lá mais para a tardinha. Só estavam a descansar.

A Planta Mais Triste Do Mundo


Um dia conheci a planta mais triste do mundo.

Vive numa cave da Reboleira, com uma fila de janelinhas rasgadas, onde o sol entra a custo filtrado por vidros daqueles com arame por dentro.

E essa cave é uma Repartição das Finanças.

Está para ali, sabe Deus há quanto tempo, a fotossintetizar no meio do pó dos processos, das pilhas de papéis amarelados, dos gorduchos peixinhos-de-prata.

Passa o dia a ouvir palavras – “penhora”, “contribuição”, “imi”, “notificação”, “já tirou a senha?”, “caducado”, “imposto”, “isso agora…” – mas ninguém conversa com ela.

E não sabe o que é a música.

Um dia desenhei a planta mais triste do mundo por piedade.

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Praia do Banheiro Gordo – Vila Nova d’Algas


Quem morará nestas casas? Será fina a areia desta praia ou terá restos de conchas que nos magoam os pés? O mar é provavelmente bravo e no ar, com certeza, pairará o cheiro inconfundível de um grelhador que alguém já acende para o almoço.

Gostava de poder visitar alguns dos locais que desenho e que não existem senão nos meus cadernos.

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Eis o Mandamento Novo.


 

ligeiramentecanhoto_naoteesquecasdaselfieMandamento para os tempos que correm: “Faças o que fizeres, não te esqueças da respectiva selfie ou nunca terás a certeza se realmente aconteceu.”