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lgmtcnht_chitavsleopardoÉ UMA SELVA LÁ FORA. Gosto daqueles dias em que vou buscar o meu filho à escola com tempo e me sento à espera que a brincadeira termine. Claro que a brincadeira nunca termina mas durante aquele bocadinho o tempo quase pára. Quando assim acontece, é normal puxar do meu caderno e desenhar qualquer coisa. Num desses dias aconteceu isto.

Silenciosas, as crianças aproximaram-se fechando um círculo à minha volta. Como um gangue de pombos a exigir as migalhas que o meu bloco lhes pudesse dar. E então ele, que é um fácil, deu-lhes tudo: uma vozinha pediu “um cão” e de repente lá estava ele. Depois uma menina pediu, claro, “uma bailarina”. Aquele rapaz que momentos antes dizia “tanto me faz” mudou de repente de ideias e berrou “agora outro cão, mas gordo!”. Sai um cão gordo para o menino indeciso. E sem que eu desse por isso, os seus pedidos transformaram-se em espadas que me encostaram à parede.

“Eu quero uma chita” ouvi do meu lado direito “e eu quero um leopardo” escutei do lado esquerdo. Eles são incrivelmente implacáveis e a resposta deve ser imediata. Tem que estar na ponta da tinta.

Uma chita! Um leopardo! Houve ali um momento em que cheguei mesmo a pensar que os felinos não iam sair. Então descontraí, respirei fundo e entreguei à minha mão esquerda toda a responsabilidade. Não queria saber, ela que se desenrascasse.

Enquanto traçava o papel em branco – não antes do desenho mas durante ele –  a minha mão esquerda foi-se lembrando de uma característica distintiva para um e depois para o outro animal. Safou-me mais uma vez sem que eu tivesse culpa nenhuma. Até ao dia…

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12 do 12. O fumo numa linha das chaminés ao céu. A ponta do nariz gelada, as manhãs claras. O cheiro da lenha acabada de rachar. O cheiro do fumo na roupa e no corpo. Resina nas mãos. Cachecóis, luvas, tosse. Filhoses, rabanadas, frutas cristalizadas. Lençóis de flanela, sacos-de-água-quente, cobertores. Numa janela o vislumbre duma lareira acesa. Dezembro chegou.

176.


FIM DE TARDE. O filho via televisão a cavalo nas costas do sofá. A mãe salteava o jantar enquanto a filha dormia uma sesta tardia. O pai estava de folga e por isso… desenhava.