207.


Bairro de Beyoglu, Istambul. Era um princípio de noite morna e numa esquina junto à estação subterrânea aquelas portas e janelas altas escancaravam para a rua as gargalhadas dos grupos de amigos que se acomodavam para o jantar. No passeio em frente, o subgrupo dos fumadores juntava desconhecidos das diferentes festas.

Visto cá de fora, era como se uma certa faixa etária dum certo estrato social de Istambul estivesse ali inteira, emoldurada naqueles vãos rasgados. Tudo isto iluminado pela luz quente e laranja dos pequenos candeeiros de latão. Como se fosse proibído não entrarmos.

Ao lado da nossa, uma mesa de seis: dois rapazes e quatro raparigas entre os 20 e os 30 anos cantavam e dançavam alegremente os sucessos turcos que se ouviam pela sala. O rapaz mais sorridente pediu-nos o favor de lhes tirarmos uma fotografia e, num inglês fluente, explicou-nos que se tinha casado há poucas horas com a menina sentada a seu lado. Aquele era o seu copo-de-água (com raki).

Retribuímos a confissão partilhando o motivo da nossa viagem: a celebração do 8º aniversário do nosso próprio casamento. Desejámos felicidades mútuas enquanto aceitávamos uma das pequenas lembranças kitsch espalhadas sobre a mesa que nos ofereciam com gosto: um chocolatinho embrulhado em papel de prata sobre o qual uma miniatura de dois cavalinhos puxava uma miniatura dos noivos sentados numa miniatura dum coche. Tudo envolto em tule.

Antes de sairmos, fizeram questão de nos oferecer uma fatia do Bolo de Noiva e sugeriram locais onde continuarmos a nossa noite. Depois acho que houve um brinde geral mas já não recordo bem. O vinho era francês e mesmo muito bom.

201.


20121116-133944.jpgChá. Em Istambul bebemos chá na esplanada do café ‘A Capela’ que serve um dos melhores hotéis da zona alta da cidade. O nome vem do facto da esplanada do café ter sido construída nas traseiras duma capela católica o que, naquela cidade, é algo verdadeiramente exótico. ::: Lembro uma cena que se passou quando, ao pagar, me entregaram um “arredondamento” do troco porque assumiram que eu não quereria receber aqueles dez cêntimos em falta. Dez cêntimos são dez cêntimos mas armei um pé de vento porque achei inadmissível decidirem que fim dar ao meu dinheiro. ::: Seja como for, estava agora capaz de lhes deixar voluntariamente dois ou três euros só para poder estar ali de novo, com a mesma companhia, a beber um chá daqueles.

197.


RAKI. Na primeira noite em Istambul, num restaurante fantástico com as paredes cobertas de fotografias antigas, provámos raki. A única bebida alcoólica que conheço que se toma diluída com água lisa. É uma pequena bomba letal com um sabor forte a anis, uma espécie de mistura entre uma pipa de aguardente caseira e um barril de Licor Beirão. É a bebida nacional de eleição e à nossa volta, a maior parte dos clientes acompanhavam, muito naturalmente, as suas refeições com raki. Se consigo entender as suas propriedades digestivas, tenho alguma dificuldade em saber como lidam eles com a ressaca que, certamente, na manhã seguinte cai como um reluzente piano de cauda sobre aquelas cabeças turcas. ::: O mais curioso é a forma como a bebida é servida: à nossa frente são colocados dois copos, ambos aparentemente meio cheios de água. Num deles está de facto água (com gelo) e no outro está… o raki. Ao copo de raki é então acrescentada água gelada e aqueles dois líquidos incolores, ao misturarem-se, adquirem uma cor leitosa ficando desde logo aptos para retirar a consciência ao ser humano mais próximo. O outro copo (o de água) permanece ali ao lado, presumo que para se ir bebendo alternadamente e assim “cortar” o efeito maligno desta bebida que eles carinhosamente apelidam de leite de leão... ::: Gosto de em Roma ser romano e por isso bebi o meu raki até ao fim mas juro que nunca mais voltarei a tocar naquela zurrapa.