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AYAMONTE. Primeiro repetimos as coisas por graça, depois já as repetimos tantas vezes que as transformámos num hábito. Mas quando as repetimos vezes suficientes, damos por nós e elas são tradição. É isso que se passa com a ida anual a Ayamonte. Antigamente íamos lá pelos caramelos, hoje vamos lá já ninguém percebe muito bem porque (à parte o preço do Gasóleo) mas a ocasião é sempre uma festa. São as compras improváveis, o carro atestado, o maravilhoso jantar de tapas na Casona mais os camarões do Ramon para trazer. Hoje foi dia de lá voltar, e voltou a ser divertido. ::: Este desenho foi feito o ano passado numa esquina da Calle Lusitania, virado para a Praça junto à Marina, enquanto bebia uma Orchata de Chufa comprada ali mesmo na loja da esquina. Num copo de vidro (“Beber Orchata num copo de plástico é como beber vinho num copo de plástico: não se faz!”, disse-me a senhora antes de o servir) que vem literalmente gelado. Há poucas bebidas mais refrescantes e saborosas para se beber naquelas ruelas escaldantes. Aconselho vivamente.

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PETÚNIA. Faz agora precisamente um ano. Sentámo-nos para almoçar – a família quase toda – uma mesa de oito ou nove. Esperámos cerca de hora e meia até finalmente chegarem os pratos pedidos, entregues pela própria Cozinheira. Uma frase feita atravessou-me o pensamento: “se no Algarve se soubesse trabalhar o Turismo, isto podia ser o Paraíso…”. Afinal o restaurante inteiro andava num alvoroço porque nesse dia os dois únicos empregados que tinham decidiram faltar. Sem um aviso ou justificação. Aliás, como viemos a saber mais tarde, nunca mais voltaram a aparecer, nem para receberem o que lhes faltava pagar. De novo a frase feita a atravessar-me o pensamento.

105.


105. by ligeiramentecanhoto
105., a photo by ligeiramentecanhoto on Flickr.

SALA DE ESPERA. Quantas mais pessoas à espera, mais fácil se torna desenhá-las disfarçadamente. É uma chatice quando dão por isso porque ou ficam desconfiadas, ou dizem logo ao amigo do lado “aquele senhor está a desenhar-me”, ou começam a fazer pose para “ficar bem no retrato” e então continuar aquele desenho deixa de fazer sentido para mim. ::: Ultimamente, fora das grandes cidades, tem-me acontecido as pessoas virem ter comigo e pedirem para ver o desenho que acabei de fazer. Seja o desenho delas próprias, duma pessoa sua conhecida ou de outra coisa qualquer. E então começam a fazer toda a espécie de perguntas e pedem para ver mais desenhos. Gosto muito destas abordagens porque finalmente dão sentido a todos aqueles textos que li sobre “o desenho enquanto forma de aproximação dos indivíduos”. Afinal é mesmo verdade.