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SOPRO. Não me lembro do nome do evento. Sei que aconteceu em Leiria e que “Festa da Música” seria um nome adequado uma vez que ela, a música, andava (literalmente) pelas ruas, em concertos que aconteciam sobre os passeios e não em salas luxuosas acessíveis apenas a alguns.

A música chegava-nos ainda longe, vinda de todos os becos, pelo ar, ricocheteando nas paredes apertadas. Estava juntos das pessoas comuns, a quem eu acho que ela deve pertencer.

Aos pés do Castelo, com enorme segurança, o pequeno José Guilherme tocou Bombardino – um som redondo e maravilhoso (exemplo) – para quem o quis escutar. Eu fui um deles, e não me importava de lá estar de novo agora.

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CÔJA. Há dois verões atrás, dois amigos de longa data convidaram-me para participar num evento cultural por eles organizado. Pediram-me para desenhar o que quisesse, desde que fosse ao vivo.

Deslumbrado pelo meu iPad que ainda cheirava a novo, propus que o fizesse digitalmente e que o resultado, projectado, pudesse ser acompanhado em tempo real por todos os visitantes.

Desenhei durante mais de duas horas, ao fim do dia, e durante esse escurecimento fui alterando constantemente as cores na tentativa de captar as diferenças de luz que ia observando.

No final, ao rever o filme completo do desenho, apercebi-me desta coisa fantástica: neste desenho ficou captado não apenas o espaço, o espaço imutável que eu observava (ponte, casas, serras), mas também o tempo uma vez que vemos um pescador que chega e vai embora, os candeeiros a acenderem, a noite a descer e a fazer crescer as sombras.

Continuo a preferir desenhar no papel mas é impossível não me render a esta coisa das “novas tecnologias”.

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O Menino Tomate. Mais uma história feita em tempo real para o meu filho adormecer. O iPad veio tornar possível esta coisa incrível que é desenhar na cama, deitado, com as cores todas que nos apetecer sem sujar nada nem ninguém. Depois, a Brushes faz com que os desenhos possam ser revistos as vezes que quisermos em forma de filme. ::: Tendo isso em consideração apenas tive que, ao desenhar, ter em conta os tempos de entrada de cada uma das frases e desenhos para que a história se fosse contando a si própria. O resultado final fica algures entre a Animação e o Livro Tradicional. Uma técnica em aperfeiçoamento.

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CHANTEUR. Quando chega a hora de deitar, a história que o meu filho me pede com mais frequência não é nenhuma em particular mas sim “uma história desenhada”. Preferencialmente uma nova história desenhada todas as noites. Há uns anos tempos atrás, como poderia eu imaginar que as histórias (principalmente as desenhadas!) que contaria para o meu filho adormecer seriam desenhadas ali mesmo, na cama, num computadorzinho mais pequeno que uma folha A4? A maior vantagem em relação ao caderno está sobretudo nesta aplicação fantástica chamada Brushes que nos permite rever o filme do desenho desde o princípio. Chego a fazer histórias completas, com vários personagens e acontecimentos só para depois vermos tudo de novo. O Brushes é o novo “conta outra vez, Pai!” ::: Este desenho/filme começou por ser uma história de astronautas, com estrelas e naves espaciais mas depressa se transformou numa outra coisa qualquer mal chegaram as letras. No iPad não existe o conceito “de-pernas-para-o-ar” uma vez que o ecrã é sensível à força gravítica e ajusta-se sozinho à posição em causa mas quando se passa o histórico do desenho para filme, isso deixa de acontecer. Assim sendo, cada Monstro-Letra que desenhei naquela noite – um abecedário completo de cores, chifres e dentes pontiagudos – surge aqui perigosamente a fazer o pino. Depois, sem aviso prévio, o fundo passa a branco e surge um Rato que aparentemente corre atrás de um Gato. Então um senhor de óculos e bigode faz uma aparição fugaz mesmo antes do meu filho me tirar a caneta da mão e ele próprio desenhar um avião que também é um tubarão. Ou vice-versa. Volta o fundo preto e antes que aquele figo amarelo acabasse de ser desenhado, o meu filho adormeceu. ::: Por um motivo qualquer, continuei a desenhar: uma cabeça, depois um nariz uma boca uns olhos e um cabelo e fui por aí fora até surgir uma cara que me fez lembrar um cantor francês dos anos 60. Percebi que estava obviamente na hora de ir dormir também. Fui.