Auloween


O Gonçalo V. (9 anos) leva tudo à frente.

O seu entusiasmo constante, transborda e agita-o de tal forma que desconcentra os colegas, o professor, e a si mesmo.

Mas no olho desse furacão, está um talento incrível com o qual tenho o privilégio de trabalhar há três anos. Um dom capaz de desenhos como este em 10 minutos e de tantas coisas mais que ele ainda nem suspeita.

IMG_0449.JPG

232.


LgmtCnht_CóbóiCóbói. Houve um tempo onde tudo o que eu queria ser era cowboy. ::: Com o meu indicador em riste e o polegar a fazer “cliques” no ar, pedalava a minha bicicleta como quem cavalgava e fazia emboscadas ao meu irmão no desfiladeiro que separava as nossas camas. ::: A minha cabeça de criança demorou algum tempo até perceber que os Índios , na verdade, não eram “os maus” e quando isso finalmente aconteceu, passei a querer ser Robin Dos Bosques.

 

185.


AREEIRO. Esperava dentro do carro enquanto desenhava o edifício mais emblemático da Praça Francisco Sá Carneiro e, enquanto desenhava, pensei em todas as vezes que a minha história se cruzou com aquela Praça. ::: Houve um tempo em que ela não era Praça mas antes Rotunda. Rotunda do Areeiro. E  “Areeiro”, para um menino que aprendia a ler, era uma palavra mágica e estranha, com dois “E” seguidos. Era também o sítio das Chaves, e o nome de uma das estações onde eu saía das poucas vezes que andava de Metro – que na altura todos chamavam de Metropolitano. ::: Essas viagens debaixo de terra eram sempre um acontecimento ao qual ainda hoje associo chuva, torradas e galões. E também, na época de Natal, uma fatia de Bolo Rei que ali se vende durante todo o ano. :::  Mais tarde, numa época em que na política aquilo que mais importava ainda eram os valores e os ideais, houve um político baixinho que fez um país (quase!) inteiro acreditar nos seus e que chegou muito jovem a Primeiro Ministro. Eu era mesmo muito novo mas lembro-me perfeitamente de, na noite em que a sua morte foi notícia e as pessoas saíram à rua em choque, estar em casa da minha Avó, muito perto desta Praça à qual deram o nome desse Francisco cujos sonhos morreram dentro daquele avião. ::: Muitos anos depois foi também naquela Praça que foi desenhado e costurado o vestido de noiva com que a minha mulher me haveria de comover ao entrar, resplandecente, na Sé de Lisboa – que talvez se veja dali, lá de cima, naquelas janelas mais altas deste edifício.

180.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O FOGÃO já foi o centro da casa. Quando ali era a cozinha, com as suas paredes escurecidas pelos fumos, e todos se sentavam à volta do lume nas noites frias de inverno. Aqueles tijolos guardam parte da história daquele ramo da minha família: o Fogão, tal como a casa inteira, foi mandado construir pelo meu Bisavô depois de regressar do Brasil. E se nessa mesma casa nasceu a minha Mãe e os meus Primos, então foi por este fogão que o Pai Natal desceu e lhes encheu os sapatinhos deixados à espera, foi nele que aqueceram as águas para as suas primeiras sopas e para os chás que aliviaram as suas indisposições infantis. ::: Hoje, ao lado desta lareira à qual todos chamam Fogão, está um televisor. Um pequeníssimo televisor que lhe retira o protagonismo (quase) todo nas noites frias de inverno. Mas as histórias da família continuam a pousar sobre a sua imponência: ali estão as fotografias dos acontecimentos mais recentes como aquela, uma das primeiras fotografias  do meu filho, ali colocada dias depois do seu nascimento.