182.


SUPERQUALQUERCOISA. Como é meu habito dizer: podemos desenhar em qualquer lado. Há certos locais então, que estão tão cheios de informação que se torna difícil escolher o que desenhar. Este desenho foi feito enquanto o meu filho brincava no parque infantil lá do bairro. Sentado num banco afastado, ao olhar lá para dentro, tive a sensação de que tudo estava a acontecer dentro daquele parque: a tia dondoca que passeava o cãozinho irritante, o revivalismo das sapatilhas All Star, a loucura com as bicicletas que nunca chega a passar de moda, os miúdos que agora decidiram que quatro rodas são rodas a mais e passaram a andar (na maior!) em skates de duas rodas e, num canto lá ao fundo, as brincadeiras sem apetrechos – para mim as mais deliciosas – onde qualquer menino tem o super-poder que lhe apetecer: ora voa, ora respira debaixo de água, ora lança um raio-lazer-super-poderoso que só não magoa o amigo porque este acabou de activar o seu mega-escudo-pretector-à-prova-de-tudo. Não há limites para a imaginação.

172.


ESTE JULHO. É Julho e finalmente cheira-me a Verão. Digo finalmente mais por ser suposto do que por desejá-lo de facto. ::: Por motivos diversos – o maior dos quais chama-se “a Vida” – fui deixando de esperar ansiosamente a chegada do Verão, de fazer a contagem decrescente para aqueles dias enormes à espera de serem preenchidos com aventuras e sombras frescas, para aceitar resignado a chegada desta Estação quente (demasiado quente) e enfrentá-la como uma coisa que tem que ser. Uma paragem forçada no quotidiano que agora já não se traduz obrigatoriamente em descanso. E se por um lado as descobertas, os castelos de areia, as bolas de berlim na praia, todas as renovadas aventuras trazidas pelos meu filhos me preencham em grande parte, por outro não consigo desligar-me de todos os problemas que deixei em Lisboa, congelados, à espera do meu regresso. Altura em que os encontrarei de novo, tudo igualzinho, apenas eu ligeiramente mais bronzeado. ::: Eu que já amei o Verão, sei o quanto isso é bom. Sabe Deus como eu gostava de um dia voltar a sentir-me assim.

169.


COLA. Comprei este bloco à confiança. Sei por experiência própria que a Windsor & Newton é uma boa marca. Foi por isso para mim um espanto quando ele se começou a desfazer poucas semanas depois de o começar a utilizar. Tempos depois, em conversa com uma especialista, fui informado que “a W&N é boa sim mas em tintas, não em papéis”. Até chegar à última página, o próprio bloco encarregou-se de me provar que a senhora tinha razão: a “espinha” da encadernação desfez-se completamente e comecei a ter um conjunto de folhas soltas envolto numa capa dura. Nem a fita-cola me valeu.

153.


À ANTIGA PORTUGUESA. Talvez a maior satisfação que os actuais movimentos organizados de pessoas apaixonadas pelo desenho em ambiente urbano (casos do UrbanSketchers ou os Cuadernistas, por exemplo) trazem a quem os segue é uma nova forma de olhar a cidade. Muitas vezes, a cidade onde eles sempre moraram. ::: Para quem, como eu, o faz há tantos anos, não é novidade esta capacidade constante de sermos surpreendidos a cada novo desenho e no entanto… é sempre especial. Desta vez aconteceu-me em plena Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, onde este topo de edifício passa desapercebido à maior parte dos transeuntes. ::: O desenho acabou por ficar a meio porque entretanto fui interrompido pela maior cena de pancadaria no trânsito a que alguma vez assisti. Mais uma surpresa urbana.