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AREEIRO. Esperava dentro do carro enquanto desenhava o edifício mais emblemático da Praça Francisco Sá Carneiro e, enquanto desenhava, pensei em todas as vezes que a minha história se cruzou com aquela Praça. ::: Houve um tempo em que ela não era Praça mas antes Rotunda. Rotunda do Areeiro. E  “Areeiro”, para um menino que aprendia a ler, era uma palavra mágica e estranha, com dois “E” seguidos. Era também o sítio das Chaves, e o nome de uma das estações onde eu saía das poucas vezes que andava de Metro – que na altura todos chamavam de Metropolitano. ::: Essas viagens debaixo de terra eram sempre um acontecimento ao qual ainda hoje associo chuva, torradas e galões. E também, na época de Natal, uma fatia de Bolo Rei que ali se vende durante todo o ano. :::  Mais tarde, numa época em que na política aquilo que mais importava ainda eram os valores e os ideais, houve um político baixinho que fez um país (quase!) inteiro acreditar nos seus e que chegou muito jovem a Primeiro Ministro. Eu era mesmo muito novo mas lembro-me perfeitamente de, na noite em que a sua morte foi notícia e as pessoas saíram à rua em choque, estar em casa da minha Avó, muito perto desta Praça à qual deram o nome desse Francisco cujos sonhos morreram dentro daquele avião. ::: Muitos anos depois foi também naquela Praça que foi desenhado e costurado o vestido de noiva com que a minha mulher me haveria de comover ao entrar, resplandecente, na Sé de Lisboa – que talvez se veja dali, lá de cima, naquelas janelas mais altas deste edifício.