Baseado em factos reais 


O rapaz com roupas tristes e olhar melancólico faz caretas para o telemóvel em pleno eléctrico na tentativa de animar a namorada do outro lado da linha. 

Perder o pio.


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No Jornal i de hoje saiu um artigo com o seguinte título:

“A geração dos phones já não consegue ouvir o canto dos pássaros” (link)

Não sei se existe uma palavra que signifique o inverso de poesia mas esta frase, para mim, é isso mesmo.

De que vale amar a música se, para a escutarmos em qualquer lado, utilizamos um dispositivo que nos pode retirar a capacidade de escutar o canto dos pássaros?

De que vale a música – e a vida – sem o canto dos pássaros?

Balonismo


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Quando terminou a sua fatia do bolo de framboesa, a princesa adolescente deu o piquenique por terminado.

Mergulhou as mãos na água verde-escura da fonte mais próxima. Quase até ao cotovelo, só até molhar as pregas das mangas enroladas. Depois, com um sorriso e um ligeiro movimento do pescoço, dispensou a aia que se esgueirou de sombra em sombra até o fresco da cozinha.

Então, num só gesto, arrastou pratos copos o bolo quase intacto talheres frascos de compota para a relva e pôs de parte a toalha branca. Colocou o banquinho de verga sobre a boca do cesto e atou-os muito bem. Depois, com uma das pontas da toalha deu um nó em volta de uma das pernas do banco – cá em cima, mesmo abaixo do assento – e repetiu o gesto para cada uma das outras pontas.

Encostou as costas ao Diospireiro, deu dois passos em frente, cinco para o lado, e desenterrou a caixa de metal onde guardava todas as cartas por ele escritas. Sobre o banquinho formou com elas um pequeno monte. Depois, primeiro uma perna depois a outra, entrou para o cesto e riscou um fósforo.

Enquanto subia acima dos telhados do palácio e as cozinheiras – a secar as mãos gordas aos aventais – vinham ver que sombra era aquela que se movia, a princesa adolescente começou a vislumbrar o muro alto que cintava a sua vida.

Pela primeira vez, acreditou que aquela talvez não fosse uma má ideia. Desta vez iria resultar.

Defender


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Como uma máscara. Sempre que me sentei ao seu volante fui um explorador intrépido.

Como um animal grande e lento. No seu dorso passei seguro por caminhos que não faria a pé.

Como um exercício físico mal feito. As minhas costas doridas no dia seguinte.

Como um manifesto. A saudação entre condutores quando se cruzam modelos iguais.

Como um trator. Feio, duro, infeliz no alcatrão.

Um automóvel como uma pessoa. Sinto saudades do meu.