É infinitamente estúpido, o medo.


Uma das piores consequências do medo que os actos aleatórios de terrorismo que vão acontecendo por estes dias ajudam a espalhar é a discriminação inadvertida onde nos vemos (todos!) mergulhados.

De repente, a cor da pele do passageiro que se senta à nossa frente no avião, a sua forma de vestir, o seu corte de cabelo, o seu sotaque, fazem-nos presumir… coisas. É a generalização, a discriminação, o estereótipo e o racismo no seu pior.

E depois, temos a viagem estragada. Porque pior que os receios que estes pensamentos nos trazem é o nojo de tê-los pensado.

A minha avó gorda.


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A minha avó paterna era gorda.

Nela, o facto de ser gorda não era um adjectivo mas antes um traço de personalidade. Era gorda como quem, por exemplo, tem o riso fácil ou mau feito (e ela tinha ambos, por acaso). Nunca lhe senti uma verdadeira vontade de alterar essa condição pois ela fazia parte da sua maneira de ser.

Lembro-me de um dia, era eu criança, estar de visita a sua casa no Bairro das Colónias e a minha avó ter deixado cair qualquer coisa ao chão. Pediu-me para ser eu a apanhá-la e eu, que ainda estava longe, estranhei o pedido. Pressentindo a hesitação, justificou-se: “é que a Avó não se pode dobrar… uma vez engoliu um garfo”.

Esta conversa aconteceu na cozinha. A maior parte das conversas com a minha Avó – pelo menos as melhores – acontecia à mesa ou na cozinha. E naquele contexto, um enorme apetite pela conversa salteada com culinária, o facto de ter engolido um garfo pareceu-me perfeitamente verosímil. E havia de ter sido dos grandes!

Durante muitos anos acreditei naquela história e foi impossível não me lembrar dela enquanto desenhava esta senhora na praia que, não sendo a minha Avó Aurora, quer-me parecer que também engoliu um talher qualquer.

A menina do mar


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“(…) A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

– É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas. (…)”

Sophia de Mello Breyner Andresen