Que las hay las hay


lgmtcnht_DeOndeVemAsBruxas_3A primeira edição do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce aconteceu no ano passado, numa altura onde eu tive tanta coisa para fazer que estive indeciso sobre se haveria de participar ou não até à última, literalmente. Decidi que sim a poucas horas de terminar o prazo de entrega.

Os desenhos foram feitos num hotel em Sevilha, pela madrugada dentro, numa mesa de vidro (o que eu odeio trabalhar em mesas de vidro!) e enviei a minha participação sob o pseudónimo de Luis Morales, o nome da rua da estação de correios de onde enviei a carta. Tudo para correr mal…

Obviamente, não ganhei concurso nenhum. Ainda assim, gosto destes dois desenhos – feitos sobre o texto vencedor de Joana Lopes – que fizeram parte da minha proposta.

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238.


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“(…) Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
 
Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais para fingir
De segunda pessoa da trindade. (…)”
 

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos VIII

207.


Bairro de Beyoglu, Istambul. Era um princípio de noite morna e numa esquina junto à estação subterrânea aquelas portas e janelas altas escancaravam para a rua as gargalhadas dos grupos de amigos que se acomodavam para o jantar. No passeio em frente, o subgrupo dos fumadores juntava desconhecidos das diferentes festas.

Visto cá de fora, era como se uma certa faixa etária dum certo estrato social de Istambul estivesse ali inteira, emoldurada naqueles vãos rasgados. Tudo isto iluminado pela luz quente e laranja dos pequenos candeeiros de latão. Como se fosse proibído não entrarmos.

Ao lado da nossa, uma mesa de seis: dois rapazes e quatro raparigas entre os 20 e os 30 anos cantavam e dançavam alegremente os sucessos turcos que se ouviam pela sala. O rapaz mais sorridente pediu-nos o favor de lhes tirarmos uma fotografia e, num inglês fluente, explicou-nos que se tinha casado há poucas horas com a menina sentada a seu lado. Aquele era o seu copo-de-água (com raki).

Retribuímos a confissão partilhando o motivo da nossa viagem: a celebração do 8º aniversário do nosso próprio casamento. Desejámos felicidades mútuas enquanto aceitávamos uma das pequenas lembranças kitsch espalhadas sobre a mesa que nos ofereciam com gosto: um chocolatinho embrulhado em papel de prata sobre o qual uma miniatura de dois cavalinhos puxava uma miniatura dos noivos sentados numa miniatura dum coche. Tudo envolto em tule.

Antes de sairmos, fizeram questão de nos oferecer uma fatia do Bolo de Noiva e sugeriram locais onde continuarmos a nossa noite. Depois acho que houve um brinde geral mas já não recordo bem. O vinho era francês e mesmo muito bom.