201.


20121116-133944.jpgChá. Em Istambul bebemos chá na esplanada do café ‘A Capela’ que serve um dos melhores hotéis da zona alta da cidade. O nome vem do facto da esplanada do café ter sido construída nas traseiras duma capela católica o que, naquela cidade, é algo verdadeiramente exótico. ::: Lembro uma cena que se passou quando, ao pagar, me entregaram um “arredondamento” do troco porque assumiram que eu não quereria receber aqueles dez cêntimos em falta. Dez cêntimos são dez cêntimos mas armei um pé de vento porque achei inadmissível decidirem que fim dar ao meu dinheiro. ::: Seja como for, estava agora capaz de lhes deixar voluntariamente dois ou três euros só para poder estar ali de novo, com a mesma companhia, a beber um chá daqueles.

197.


RAKI. Na primeira noite em Istambul, num restaurante fantástico com as paredes cobertas de fotografias antigas, provámos raki. A única bebida alcoólica que conheço que se toma diluída com água lisa. É uma pequena bomba letal com um sabor forte a anis, uma espécie de mistura entre uma pipa de aguardente caseira e um barril de Licor Beirão. É a bebida nacional de eleição e à nossa volta, a maior parte dos clientes acompanhavam, muito naturalmente, as suas refeições com raki. Se consigo entender as suas propriedades digestivas, tenho alguma dificuldade em saber como lidam eles com a ressaca que, certamente, na manhã seguinte cai como um reluzente piano de cauda sobre aquelas cabeças turcas. ::: O mais curioso é a forma como a bebida é servida: à nossa frente são colocados dois copos, ambos aparentemente meio cheios de água. Num deles está de facto água (com gelo) e no outro está… o raki. Ao copo de raki é então acrescentada água gelada e aqueles dois líquidos incolores, ao misturarem-se, adquirem uma cor leitosa ficando desde logo aptos para retirar a consciência ao ser humano mais próximo. O outro copo (o de água) permanece ali ao lado, presumo que para se ir bebendo alternadamente e assim “cortar” o efeito maligno desta bebida que eles carinhosamente apelidam de leite de leão... ::: Gosto de em Roma ser romano e por isso bebi o meu raki até ao fim mas juro que nunca mais voltarei a tocar naquela zurrapa.

182.


SUPERQUALQUERCOISA. Como é meu habito dizer: podemos desenhar em qualquer lado. Há certos locais então, que estão tão cheios de informação que se torna difícil escolher o que desenhar. Este desenho foi feito enquanto o meu filho brincava no parque infantil lá do bairro. Sentado num banco afastado, ao olhar lá para dentro, tive a sensação de que tudo estava a acontecer dentro daquele parque: a tia dondoca que passeava o cãozinho irritante, o revivalismo das sapatilhas All Star, a loucura com as bicicletas que nunca chega a passar de moda, os miúdos que agora decidiram que quatro rodas são rodas a mais e passaram a andar (na maior!) em skates de duas rodas e, num canto lá ao fundo, as brincadeiras sem apetrechos – para mim as mais deliciosas – onde qualquer menino tem o super-poder que lhe apetecer: ora voa, ora respira debaixo de água, ora lança um raio-lazer-super-poderoso que só não magoa o amigo porque este acabou de activar o seu mega-escudo-pretector-à-prova-de-tudo. Não há limites para a imaginação.

172.


ESTE JULHO. É Julho e finalmente cheira-me a Verão. Digo finalmente mais por ser suposto do que por desejá-lo de facto. ::: Por motivos diversos – o maior dos quais chama-se “a Vida” – fui deixando de esperar ansiosamente a chegada do Verão, de fazer a contagem decrescente para aqueles dias enormes à espera de serem preenchidos com aventuras e sombras frescas, para aceitar resignado a chegada desta Estação quente (demasiado quente) e enfrentá-la como uma coisa que tem que ser. Uma paragem forçada no quotidiano que agora já não se traduz obrigatoriamente em descanso. E se por um lado as descobertas, os castelos de areia, as bolas de berlim na praia, todas as renovadas aventuras trazidas pelos meu filhos me preencham em grande parte, por outro não consigo desligar-me de todos os problemas que deixei em Lisboa, congelados, à espera do meu regresso. Altura em que os encontrarei de novo, tudo igualzinho, apenas eu ligeiramente mais bronzeado. ::: Eu que já amei o Verão, sei o quanto isso é bom. Sabe Deus como eu gostava de um dia voltar a sentir-me assim.